Advogada de processo estratégico te diz quando não litigar e por que essa decisão protege o seu negócio mais do que qualquer vitória judicial.
Existe uma crença muito comum no mundo corporativo: se você tem razão, deve entrar com a ação.
Simples assim. Afinal, para isso existe o judiciário, certo? Errado.
Depois de muitos anos atuando em diversos tribunais pelo Brasil, posso afirmar com segurança que algumas das melhores decisões jurídicas que tomei ao lado dos meus clientes foram a decisão de não litigar.
Claro que essa decisão vai depender do objetivo de cada empresário, momento e caixa.
Mas essas decisões protegeram mais caixa, mais tempo e mais reputação do que qualquer sentença favorável teria feito.
Ter razão juridicamente e ter estratégia são coisas diferentes. E confundir as duas pode custar caro.
Antes de qualquer nova demanda, as perguntas que importam não são apenas "vou ganhar?", mas sim:
- Quanto tempo esse processo vai consumir? Tempo de gestão, de liderança, de energia. Tudo isso tem custo, e raramente aparece na planilha de viabilidade da ação.
- Como isso afeta o relacionamento comercial? Em mercados específicos, um processo público pode fechar portas que nenhuma indenização vai reabrir.
- O valor da causa justifica o custo real? Honorários, sucumbência, provisionamento contábil, impacto no fluxo de caixa e impacto negativo na planilha de auditoria raramente são calculados juntos antes da decisão.
- Existe uma alternativa que resolve o problema mais rápido? Negociação estruturada, mediação ou até uma cláusula contratual renegociada podem ser mais rentáveis do que a melhor das sentenças.
Para refletir
Uma empresa que litiga tudo vira refém do judiciário — e vale lembrar que o Poder Judiciário está abarrotado de processos, e o seu vai para uma fila comum.
Uma empresa que litiga com estratégia usa o judiciário como ferramenta, e decide, de forma consciente, quando essa ferramenta serve e quando não serve ao negócio.
O papel do jurídico estratégico não é abrir processos. É proteger o negócio, e às vezes, a melhor proteção é evitar que o conflito chegue ao tribunal ou à própria exposição em "praça pública".
Isso exige uma relação diferente com o seu advogado. Não a relação de quem contrata um serviço pontual quando o problema já estourou, mas a relação de quem tem um parceiro dentro das decisões estratégicas da empresa, que entende o negócio, o setor e o custo real de cada escolha jurídica.
Litigar bem começa antes de distribuir a petição. Começa na pergunta: isso vale a pena para o meu negócio?