A Inteligência Artificial deixou de ser uma tendência. Ela já está aumentando a produtividade dentro das empresas. O problema é que produtividade, sozinha, não significa transformação.
Uma pesquisa da Mercer (Global Talent Trends 2026), repercutida pela Exame, mostra um cenário bastante interessante:
- 83% dos colaboradores afirmam que a IA aumentou sua produtividade;
- 72% dizem que o acesso às ferramentas ainda é desigual;
- Apenas 20% a 30% das empresas utilizam a IA para redesenhar processos, criar novos modelos de negócio e transformar a forma como as equipes trabalham;
- 62% dos colaboradores acreditam que as lideranças subestimam os impactos emocionais e psicológicos da IA, enquanto apenas 19% dos líderes de RH consideram esse tema em suas estratégias.
Esses números revelam algo importante: a maioria das empresas ainda está na primeira fase da implementação da Inteligência Artificial.
É a fase em que a tecnologia apenas faz o mesmo trabalho de forma mais rápida, mas ainda não é transformação.
Onde mora o verdadeiro risco
A verdadeira mudança acontece quando a empresa revisa seus processos, redefine funções, desenvolve novas competências e adapta sua cultura para uma realidade em que humanos e inteligência artificial trabalham de forma integrada — e é justamente aqui que mora o maior risco.
Enquanto muitas organizações discutem qual ferramenta contratar, poucas estão discutindo como preparar as pessoas para trabalhar nesse novo cenário, porque a tecnologia evolui em uma velocidade impressionante, mas as empresas, nem tanto.
Se esse processo não for conduzido com planejamento, os problemas deixam de ser tecnológicos e passam a ser humanos, com:
- Profissionais inseguros;
- Resistência à mudança;
- Uso inadequado das ferramentas;
- Dependência excessiva da IA para atividades que exigem pensamento crítico;
- Desenvolvimento reduzido de competências essenciais;
- Conflitos internos e aumento dos riscos trabalhistas.
No médio prazo, também existe um desafio relevante para o mercado: diversas funções tendem a ser redesenhadas ou reduzidas pela automação. Empresas que não prepararem seus colaboradores para essa transição poderão enfrentar impactos significativos na gestão de pessoas e na retenção de talentos.
Por isso, acredito que os próximos anos colocarão RH e Compliance no centro da estratégia empresarial. Não será suficiente definir quais ferramentas de IA utilizar: será necessário criar regras claras para seu uso, revisar políticas internas, desenvolver programas de capacitação, estabelecer critérios de governança, proteger dados, mitigar riscos jurídicos e, principalmente, preparar pessoas para uma nova forma de trabalhar.
A Inteligência Artificial promete reduzir custos, mas uma implementação sem governança pode gerar um passivo muito mais caro: perda de talentos, aumento de conflitos internos, adoecimento psicológico, riscos regulatórios e decisões tomadas sem critérios.
Empresas que enxergarem a IA apenas como uma ferramenta de produtividade provavelmente ganharão eficiência. Já as que entenderem que ela exige uma transformação organizacional terão uma vantagem competitiva muito maior — porque, no futuro do trabalho, a tecnologia será acessível para todos. A diferença estará na forma como cada empresa prepara suas pessoas para utilizá-la.
Advogada empresarial, especialista em direito digital, LGPD, inteligência artificial e contratos, tendo atuado com empresas nacionais e multinacionais. Sócia da Alltra Advogados, membro da comissão da OAB/SP de Proteção de Dados.