A Meta está sendo processada e acusada nos Estados Unidos por divulgar imagens íntimas dos usuários dos óculos que filmam tudo ao redor.
O motivo: a forma como teria utilizado as imagens captadas pelos usuários.
Parece distante da realidade da sua empresa, mas não é.
Esse caso diz muito mais sobre o futuro dos negócios do que sobre a própria Meta. Porque, no fundo, ele nos obriga a olhar para uma pergunta que todo empresário deveria fazer antes de adotar uma nova tecnologia:
Toda inovação resolve um problema. Mas qual problema novo ela cria?
Eu gosto de tecnologia. Como empresária, acredito que inovar deixou de ser uma opção. Hoje usamos inteligência artificial, automações, integrações, plataformas conectadas e uma quantidade de ferramentas que, há poucos anos, pareciam ficção científica.
E, sinceramente? Na maioria das vezes, a inovação chega muito antes da regulamentação.
O mercado não espera uma lei para começar a usar uma nova tecnologia. Ele simplesmente adota aquilo que aumenta produtividade, reduz custos ou melhora a experiência do cliente. Foi assim com a internet. Foi assim com os smartphones. Foi assim com as redes sociais. E também foi assim com a inteligência artificial.
E agora está acontecendo com os óculos inteligentes que diversos criadores de conteúdo passaram a utilizar: eles gravam vídeos, captam áudio e registram tudo o que acontece ao redor do usuário. A tecnologia é impressionante, mas ela também traz perguntas que, até pouco tempo atrás, nem existiam.
Quem pode ser gravado?
É possível registrar a imagem de terceiros sem que eles percebam? Quem responde se esse conteúdo for utilizado de forma indevida? E se essas imagens forem compartilhadas com parceiros, fornecedores ou utilizadas para treinar ferramentas de inteligência artificial?
Perceba que, de repente, uma discussão que parecia ser apenas sobre um novo gadget passa a envolver privacidade, proteção de dados, responsabilidade civil, governança e gestão de riscos.
É exatamente assim que o Direito evolui. Primeiro surge a inovação e depois surgem os problemas. Só então vêm as novas regras.
Foi exatamente isso que aconteceu com a LGPD. E, muito provavelmente, veremos o mesmo movimento em relação aos óculos inteligentes — tanto que já tramita no Brasil um projeto de lei propondo regras específicas para esse tipo de tecnologia.
O equilíbrio entre inovação e segurança
E é aqui que eu quero deixar uma reflexão para você, empresário: não existe inovação sem risco, mas também não existe empresa competitiva que deixe de inovar por medo.
O verdadeiro desafio não é escolher entre inovação ou segurança. É encontrar o equilíbrio entre as duas.
As empresas que mais se destacam não são necessariamente as que adotam todas as novidades primeiro. São aquelas que conseguem inovar entendendo os riscos, preparando processos, treinando pessoas e criando mecanismos para que a tecnologia trabalhe a favor do negócio — e não contra ele.
No fim, talvez essa seja uma das maiores responsabilidades do empresário moderno: não apenas acompanhar a inovação, mas garantir que ela aconteça de forma inteligente, sustentável e segura.
Advogada empresarial, especialista em direito digital, LGPD, inteligência artificial e contratos, tendo atuado com empresas nacionais e multinacionais. Sócia da Alltra Advogados, membro da comissão da OAB/SP de Proteção de Dados.